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Pesquisadora discute os significados das atividades físicas no Egito antigo

Humanas

Descobertas arqueológicas mostram que egípcios antigos praticavam atividades físicas e jogos, mas ainda é difícil saber quais representações este povo dava para o esporte

 

O Antigo Egito nos evoca as notáveis construções arquitetônicas, o patrimônio cultural, o desenvolvimento inovador da agricultura e da escrita, a religião e o pioneiro processo de mumificação. Mas qual o estatuto da atividade física nessa sociedade? Dá para falar em prática esportiva? Artigo da Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia mostra este aspecto pouco pesquisado e divulgado da cultura egípcia: o esporte praticado nesta que foi uma das mais importantes civilizações da humanidade.

Se, na sociedade atual, existe uma definição clara do termo “esporte” como lazer, e do termo ” jogo”, que, de acordo com o dicionário Houaiss, “é uma atividade cuja natureza ou finalidade é a diversão, o entretenimento”, os egípcios antigos não conheciam esses termos. Mas isso não os impedia de realizar práticas esportivas e jogos, fatos comprovados pelos registros de desenhos e documentos escritos encontrados por arqueólogos.

 

A pesquisadora Cintia Gama-Rolland é quem trata “da questão da existência (ou não) do conceito de esporte para os egípcios antigos […] evidenciando as dificuldades interpretativas associadas à noção de esporte no Egito Antigo“. Apurou-se que não há relatos de competições esportivas nem atletas tratados como heróis. O único a brilhar por sua força física ou pela atividade física executada era o rei, exclusivamente o faraó, já que uma das prerrogativas do poder real era a representação de sua força e invencibilidade. Arqueologicamente falando, não foi encontrada nenhuma estrutura esportiva do período faraônico. As principais fontes usadas para estudo são, em sua maioria, provenientes de decorações de tumbas de particulares, e as representações estudadas estão em contexto funerário.

Jogo do Rodopio, tumba de Baqet III, parede norte. Fonte: N. Kanawati; A. Woods. Beni Hassan: art and daily life in an Egyptian province. Supreme Council of Antiquities: Cairo, 2010 – Imagem: Reprodução
Jogo do Rodopio, tumba de Baqet III, parede norte. Fonte: N. Kanawati; A. Woods. Beni Hassan: art and daily life in an Egyptian province. Supreme Council of Antiquities: Cairo, 2010 – Imagem: Reprodução

 

Faltam pesquisas para averiguar se essas representações podem ser usadas para se tentar compreender as práticas esportivas de toda a história egípcia, “já que há um grande vácuo nas fontes conhecidas“.

A autora salienta a participação ativa da mulher nas atividades esportivas, como os jogos com bola, atividade que “parece ter sido exclusivamente feminina”, malabarismo e dança.

Bola e bastão, por sua vez, surgem em um ritual protagonizado pelo faraó, que representa a luta contra o mal, com a proteção de alguns deuses: “em que o rei deve bater numa bola lançada com um bastão, diante de Hathor, Mut, Tefnut ou Sekhmet, com o objetivo de destruir o olho mau da serpente Apófis“.

 

.Os homens praticavam também a dança acrobática; o atletismo – parte da formação militar -, em uma demonstração do poder real, “sem deixar nenhum traço arqueológico como esporte“; a natação e a pesca no Nilo; as lutas como boxe e combates com espadas e bastões – “apenas em quatro sepulturas da necrópole de Beni Hassan há mais de duzentas representações de lutas“. No Antigo Império a caça tinha aspectos simbólicos na cultura egípcia. Animais de grande porte, segundo a crença, concediam, ao caçador, poder de vencer o mal e confirmavam a força física e espiritual dos governantes, “pois a saúde do faraó é um duplo representativo da saúde do Estado“, demonstrando sua capacidade em manter a ordem social e proporcionar segurança ao povo. Assim, mostrar-se como um governante que controlasse as forças naturais era mais uma demonstração da vitória da ordem egípcia diante do caos externo.

 

A questão dos mistérios envolvendo o antigo Egito alcançam, de acordo com o que nos conta a autora, o esporte ou essas práticas ditas esportivas, que teriam “ultrapassado os limites de uma ação física […] Não sabemos ao certo os significados das práticas que hoje conhecemos como esportivas, já que o próprio conceito de esporte enquanto vocábulo inexiste para essa civilização“. Interessante observar que essas práticas permeiam diversos níveis de compreensão – podem ser espetáculos, treino militar, símbolos de espiritualidade, poder, a representação do combate entre a ordem e o caos. Se as pesquisas até agora conduziram a essas interpretações, é preciso que não se descarte a possibilidade de haver “conotação profana e cotidiana que pode ter sido menos evidente, tanto nos registros textuais quanto nos arqueológicos“. Cintia Alfieri Gama-Rolland é pesquisadora associada da École Pratique des Hautes Études (EPHE), coordenadora e professora no Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e pós-doutoranda pelo Museu Nacional

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